Folha de São Paulo, 7 de fevereiro de 2009 - Caderno Ilustrada - Mônica Bergamo
Crise? Credo!
Quatro mulheres de investidores financeiros se reúnem em um bar em São Paulo e contam ao repórter Paulo Sampaio os efeitos da quebradeira internacional em seu relacionamento conjugal
Elas contam que "foi difícil". A empresária e profissional de marketing Mariana Campos Barbosa Lima, 34, diz que seu marido "head trader" (consultor financeiro) ficou "mudo". O da joalheira Lyna Carbone Jenner, 30, um investidor do ramo imobiliário, passou a tomar antiácido. O namorado da consultora Ana Carolina Almeida, 29, captador de recursos para crédito externo, parou de mandar a "flor mensal". O da estilista Fernanda Almeida, 29, um corretor de títulos de valores mobiliários, repetia: "Você não sabe como eu tô pobre". Em Nova York, a crise econômica levou mulheres de financistas de Wall Street a criar o Daba ("Dating a Banker Anonymous", ou "Namoradas de Banqueiros Anônimas"), um grupo de apoio mútuo às desoladas garotas (leia box).
FOLHA - Como seus maridos e namorados reagiram à crise?
MARIANA BARBOSA - O meu [marido], que fala pelos cotovelos, ficou mudo.
ANA CAROLINA ALMEIDA - O Cris dormia e acordava com a TV na Bloomberg [canal inglês que transmite as variações do mercado internacional]. Começou a tomar remedinho pra dormir, apareceram alguns cabelos brancos.
MARIANA - No Marcelo, teve um agravante: ele perdeu o ânimo. A gente parou de sair. E meu marido é "o incluído social". São três almoços todo sábado. Não que eu não goste de ir, mas a gente vai por algo além do prazer. Ele acha que precisa.
FOLHA - A crise levou a cortar gastos domésticos?
MARIANA - Temos uma regra em casa. Tudo pode faltar, menos a babá.
FOLHA - Houve mudança no tratamento deles com os outros?
ANA - O Cris perdeu aquela alegria. Nas férias, a gente viajou pra dentro do Brasil. Foi um lugarzinho bárbaro, em Santa Catarina. Era mais pra não gastar dinheiro.
MARIANA - Pra não gastar em dólar, né, Aninha?
FOLHA - E o assunto entre eles?
ANA - Os homens se uniram.
MARIANA - O Marcelo nunca foi de entrar em casa falando ao telefone, mas ele simplesmente não esgotava o assunto.
FOLHA - E o humor?
ANA - De primeiro, o Cris até ficou irritado; depois, carente.
FERNANDA ALMEIDA - O meu caso era completamente diferente de tudo o que eu tô ouvindo. Pelo menos em casa, ele dizia: "Vamos evitar esse assunto".
TODAS - Nossa, que maravilha!
MARIANA - Amigas, nossas histórias são café pequeno perto de outras. Tenho uma conhecida que a vida do marido acabou. Ele perdeu dinheiro aplicado da família inteira. Da irmã milionária, do irmão triliardário. Esse cara é mais velho, quase 50, daquela fase que os nossos meninos não pegaram, em que um cara, com 30 anos, já tinha feito US$ 2 milhões.
FOLHA - Mas hoje ainda existe esse negócio de conquistar o primeiro milhão?
MARIANA - Ôpa! A coisa mais comum nesse meio é ouvir: "Como assim, você vai ter um filho antes de fazer o primeiro milhão de dólares?".
FERNANDA - [Séria] É uma ideia muito idiota!
AS OUTRAS - É, mas existe!
MARIANA - Eles falam sério! Te chamam de irresponsável.
FOLHA - E eles têm esse dinheiro?
MARIANA - Têm...têm, têm.
FERNANDA - Mas quem inventou isso? Você faz parte de qual porcentagem do PIB nacional?
MARIANA E ANA - Não, Fernanda, isso é conversa de roda no mercado financeiro.
LYNA JENNER- É papo de menino. É o equivalente a: "Como você não tem uma enfermeira, só uma babá?".
FOLHA - Costuma-se dizer que o investidor do mercado financeiro valoriza o status proporcionado pelo que é caro.
TODAS - Ôpa, sem dúvida!
MARIANA - O carro, o relógio, o sapato.
ANA - Principalmente o carro.
FOLHA - Qual o carro do Cris?
ANA - [Rindo] Ele comprou um Freelander [Land Rover].
LYNA - O Cris [são dois com o mesmo nome] é bem consumista. Sapato, roupa... o carro é uma BM[W].
MARIANA - Quando eu comecei a namorar o Marcelo, achava que ele era milionário. Eu nasci bem, morei em Nova York, mas, mesmo assim, ele me impressionou. Pensei: "Que sorte encontrar um cara lindo, rico...". Ele morava sozinho em um apartamento enorme, de quatro quartos, na Vila Nova Conceição, e era chiquérrimo nos detalhes: na abotoadura, no bico do sapato. Ele sempre diz: "Para alguém colocar o dinheiro comigo, tem que acreditar que eu sou muito rico, muito próspero".
FOLHA - A crise mudou isso?
LYNA - O que mudou foram os planos de comprar uma casa no campo, fazer uma megaviagem pra St. Barths, pra Europa.
FOLHA - Parece mais frustrante ainda para quem costuma planejar o que vai fazer com o dinheiro que ainda não ganhou.
LYNA - A vida continua.
FOLHA - Fora ganhar dinheiro, do que os rapazes gostam?
ANA - O Cris ama vinho. Tem duas adegas, que deram uma boa esvaziada. E, no auge, ele não repôs. Só agora, recentemente.
FOLHA - Como é a casa de um investidor como o Cris?
ANA - Ele mora em um apartamento de homem, no Morumbi. São três quartos, mas ele quebrou um com a sala e tem um escritório.
FOLHA - Fernanda falou pouco...
FERNANDA - Meu namorado não segue esse estereótipo, sapato, relógio. Ele se mudou agora para um apartamento melhor, comprou jipe.
FOLHA - Que jipe?
FERNANDA - Acho que é Santa Cruz... [com expressão de quem pede socorro] ou Veracruz?
MARIANA - Tem os dois.
FERNANDA - Veracruz, então. LYNA - Mais de R$ 100 mil.
FOLHA - O.k., mas como foi então que ele sentiu a perda de dinheiro?
FERNANDA - Ele dizia: "Você não sabe como eu tô pobre!". Eu o animava. Outro dia fomos comer num japonês que é mais carinho e vivia lotado, estava vazio. Mas a gente tava lá.
FOLHA - Ele não é consumista?
FERNANDA - Não, gasta com vinho e comida.
MARIANA - É que o mercado financeiro tem as miniturmas. A do polo, a do golfe...
FOLHA - Você conhece a "miniturma do polo"?
MARIANA - 90% do mercado financeiro faz polo. Na crise, meu marido não jogou nenhuma vez. Custa uma fortuna. Tem que ter sete cavalos. Então, nessas sutilezas é que você sente a crise.
FOLHA - Os especialistas dizem que é comum haver problema sexual em homens que enfrentam crises.
TODAS - Siiiiim [mas ninguém diz que aconteceu consigo].
LYNA - Eu estava de resguardo.
ANA - Eu só vejo o Cris no fim de semana, então não mudou.
FOLHA - Uma amante faz parte do arsenal de status do investidor?
FERNANDA - Claro, de todos. ANA - Eu não penso nisso. MARIANA - Não é coisa de investidor, é de homem.
FOLHA - Recentemente, entrevistei um psicanalista que acredita que os investidores escolhem suas mulheres pensando mais em fazer uma dupla social boa do que no amor.
MARIANA - Rola isso, sim. É até feio falar, mas a ex-namorada do Marcelo era uma "baianinha". Tenho certeza de que o fato de eu ter morado no mundo inteiro, falar línguas, conhecer pessoas o levou a pensar: "Vou ficar com esse fim de mundo [a "baianinha"] ou fazer essa troca?". E me escolheu.
ANA - O Cris tem pavor de mulher feia. Gorda? Não pode ver.
FOLHA - Como enfrentar a crise?
MARIANA - Quando a gente pensava em abrir um vinho de preço exorbitante, o Marcelo dizia: "Não vamos abrir esse, não. Vai que a gente precise vender...".
Todas riem muito.
ANA - É cada coisa louca. A gente ficava imaginando vender o carro e ter que andar num "Unozinho", sei lá, vender a casa, sabe quando você começa a pensar? Vender a mãe pra recuperar o que eu perdi e investir...
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Repercutindo...
...postagem do blog do Serraria, http://vilabrasilcodigolivre.blogspot.com/, resposta minha, discussão aberta, quem vem nessa?
Depois da ida a São Paulo, agora no RJ, me ponho a pensar sobre os meandros dessa faceta relacionada à música independente no Brasil: a questão da circulação. Criar, gravar, lançar é uma parte complexa mas realizável da empreitada. A circulação me parece ser a questão que deve ser objeto de análise séria e profunda. As leis de incentivo são um caminho mas seria interessante desenvolverem-se outras alternativas que evitassem a restrição a apenas isso além da velha tática de investimento na grande mídia. Informações dão conta de que as leis de incentivo deverão ser revistas até o final do ano. A Lei Rouanet carece urgentemente de revisão, à medida que é elemento importantíssimo nesse gargalo que é a subsistência no mercado da música. A prática nefasta do jabá também precisa ser enfrentada de forma séria e objetiva pelo governo federal, já que as emissoras de rádio e TV são concessões públicas. Uma olhada séria fazendo valer a Constituição Brasileira, (que acreditem, fala da função das rádios!) já seria um ótimo ponto de partida. Enfim, dilemas que precisam ser vistos com profundidade e objetividade para que avancemos nesse caminho. Eu tenho dúvidas e questionamentos aos montes. Se houver opinião do lado de quem lê, exponha, ajudando a montar esse quebra cabeça ou ao menos aumentando criticamente o volume de questionamentos!
Marcelo Cougo disse...
O velho esquema do jabá penso que deve ser combatido de frente por uma legislação mais dura, que trate diretamente do assunto...mas como se os que votam as leis são em sua maioria donos de rádios/tv/jornais...bem há os projetos de iniciativa popular, coisa de milhões de assinaturas mas um mecanismo democratico que precisa ser mais utilizado por nosso povo. Também penso no esquema guerrilha, sair, conversar, que sabe panfletear pois a grande maioria das pessoas não percebe a existência do jabá e ficam sempre muito impressionadas quando lhes é informado que aquilo que pensam que gosta é imposto (duas xs) por um esquema que é nefasto pra cultura do nosso país. Sem essa de que são coisas do mercado, ele, o mercado, encontra-se por aí, cambalente e pedindo um empurrãozinho para que a mudança se instale de vez nesse planeta. Um abraço, Serraria, boa sorte pois poesia, bem sei, não há de faltar!
Depois da ida a São Paulo, agora no RJ, me ponho a pensar sobre os meandros dessa faceta relacionada à música independente no Brasil: a questão da circulação. Criar, gravar, lançar é uma parte complexa mas realizável da empreitada. A circulação me parece ser a questão que deve ser objeto de análise séria e profunda. As leis de incentivo são um caminho mas seria interessante desenvolverem-se outras alternativas que evitassem a restrição a apenas isso além da velha tática de investimento na grande mídia. Informações dão conta de que as leis de incentivo deverão ser revistas até o final do ano. A Lei Rouanet carece urgentemente de revisão, à medida que é elemento importantíssimo nesse gargalo que é a subsistência no mercado da música. A prática nefasta do jabá também precisa ser enfrentada de forma séria e objetiva pelo governo federal, já que as emissoras de rádio e TV são concessões públicas. Uma olhada séria fazendo valer a Constituição Brasileira, (que acreditem, fala da função das rádios!) já seria um ótimo ponto de partida. Enfim, dilemas que precisam ser vistos com profundidade e objetividade para que avancemos nesse caminho. Eu tenho dúvidas e questionamentos aos montes. Se houver opinião do lado de quem lê, exponha, ajudando a montar esse quebra cabeça ou ao menos aumentando criticamente o volume de questionamentos!
Marcelo Cougo disse...
O velho esquema do jabá penso que deve ser combatido de frente por uma legislação mais dura, que trate diretamente do assunto...mas como se os que votam as leis são em sua maioria donos de rádios/tv/jornais...bem há os projetos de iniciativa popular, coisa de milhões de assinaturas mas um mecanismo democratico que precisa ser mais utilizado por nosso povo. Também penso no esquema guerrilha, sair, conversar, que sabe panfletear pois a grande maioria das pessoas não percebe a existência do jabá e ficam sempre muito impressionadas quando lhes é informado que aquilo que pensam que gosta é imposto (duas xs) por um esquema que é nefasto pra cultura do nosso país. Sem essa de que são coisas do mercado, ele, o mercado, encontra-se por aí, cambalente e pedindo um empurrãozinho para que a mudança se instale de vez nesse planeta. Um abraço, Serraria, boa sorte pois poesia, bem sei, não há de faltar!
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Show no Quilombo
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
É certo que sim...
O sopapo está batendo em algum lugar
Hoje fiquei triste, roubaram o Quilombo do Sopapo e levaram o instrumento branco que eu havia doado à casa. Ele foi buscado em Pelotas no ano de 1998, antes do primeiro Cabobu. Espero que aqueles que levaram façam bom uso, eles podem não saber que estão levando um instrumento sagrado mas certamente estão espalhando, às avessas, uma idéia de que esse instrumento é algo vivo, merece estar circulando em rodas de samba, em terreiros de umbanda, onde houver gente interessada em se expressar. A vida impõe dificuldades e surpresas, o Ponto de Cultura (foto, show Vila Brasil lá, há três semanas atrás) presta um relevante serviço à comunidade e mesmo assim invadem e roubam uma série de objetos. Talvez isso seja parte do aprendizado também, saber que as coisas nem sempre saem do jeito que esperamos, precisamos estar preparados, precisamos seguir em frente, lutando pela inclusão cultural e às vezes permitindo nos entristecer com fatos inesperados. A vida segue, a luta continua, RESISTIR É COMBATER. Segunda estaremos no Quilombo do Sopapo para fazer uma sessão de fotos, surpresas positivas estão sendo preparadas, Bambas da Orgia 2009, Sandro Gravador e eu com idéias, Giba Giba sendo homenageado, uma parelha de sopapos deve atravessar a avenida do Sambódromo gaúcho, me emociono só de pensar, tem muita coisa para construir ainda até que viabilizamos essa idéia, Oxalá nos ajude que aconteça!!!
Richard Serraria, Vila Brasil, link ao lado, obrigado.
Hoje fiquei triste, roubaram o Quilombo do Sopapo e levaram o instrumento branco que eu havia doado à casa. Ele foi buscado em Pelotas no ano de 1998, antes do primeiro Cabobu. Espero que aqueles que levaram façam bom uso, eles podem não saber que estão levando um instrumento sagrado mas certamente estão espalhando, às avessas, uma idéia de que esse instrumento é algo vivo, merece estar circulando em rodas de samba, em terreiros de umbanda, onde houver gente interessada em se expressar. A vida impõe dificuldades e surpresas, o Ponto de Cultura (foto, show Vila Brasil lá, há três semanas atrás) presta um relevante serviço à comunidade e mesmo assim invadem e roubam uma série de objetos. Talvez isso seja parte do aprendizado também, saber que as coisas nem sempre saem do jeito que esperamos, precisamos estar preparados, precisamos seguir em frente, lutando pela inclusão cultural e às vezes permitindo nos entristecer com fatos inesperados. A vida segue, a luta continua, RESISTIR É COMBATER. Segunda estaremos no Quilombo do Sopapo para fazer uma sessão de fotos, surpresas positivas estão sendo preparadas, Bambas da Orgia 2009, Sandro Gravador e eu com idéias, Giba Giba sendo homenageado, uma parelha de sopapos deve atravessar a avenida do Sambódromo gaúcho, me emociono só de pensar, tem muita coisa para construir ainda até que viabilizamos essa idéia, Oxalá nos ajude que aconteça!!!
Richard Serraria, Vila Brasil, link ao lado, obrigado.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Vingança!
Deu no Blog do Azenha, Vi o mundo, a manifestação dos leitores da revista Época dá uma certa esperança de que as coisas não vão ficar do jeito que estão, quem quiser vai lá dar uma olhada:
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/nassif-leitores-revoltados-detonam-epoca/r//
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/nassif-leitores-revoltados-detonam-epoca/r//
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Chegou Vila Brasil

Chegou bem de cantinho dando boa tarde quando era bom dia!!
Cd solo do Richard Serraria, parceiro de bataclã FC e outras aventuras musicais, Vila Brasil chega em formato SMD, com arte simples mas bacana, com aquela lírica das beiradas do Guaíba e uma sonoridade emprestada de vários lugares desse sul de hemisfério. Precinho módico, 5 pilas pra ouvir um timaço que foi montado pro cd e para os shows que já estão correndo por aí!! Mas dá pra baixar di grátis também!! Quem quiser saber mais sobre esse belíssimo trabalho acessa o blog do Serraria:
http://vilabrasilcodigolivre.blogspot.com/
Pra finalizar, vai meu parabéns pro irmão e profundo agradecimento por ter podido participar desse grande momento, VALEU!!!!
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Análise das últimas eleições
Nas últimas eleições me envolvi de maneira tímida. nem mesmo adesivo de candidaturas eu usei. Mas não deixei de batalhar pelas minhas convicções, principalmente em relação a uma candidatura para vereador em que não apenas votei mas tenhos certeza, pelos meus cálculos e respostas que tive das pessoas, consegui mais de 10 votos. Foi a candidatura do Célio Golim, à frente de um coletivo que luta pelo direito à diversidade. Tive vários motivos para agir assim entre eles a crença de que essa luta é extremamente revolucionária e que o Célio representava uma alternativa de combate político organizado e coletivo. Essa semana recebi um e-mail com a avalição da campanha. Pô, isso sim é respeitar o cidadão. Democracia é o tempo todo e não apenas no dia da eleição. Gostei muito da avaliação e deixo aqui com vocês, vale a leitura. O e-mail para contato é:
celiogolin13024@gmail.com
Elementos para uma avaliação da campanha que disse
SIM à DIVERSIDADE
O presente texto é resultado de um esforço coletivo realizado pela coordenação da campanha CÉLIO GOLIN VEREADOR – SIM À DIVERSIDADE, visando avaliar a campanha, identificar seus pontos fortes e debilidades e, sobretudo, oferecer ao coletivo de apoio à candidatura, elementos para a interpretação do resultado das urnas e da conjuntura pós-eleitoral em Porto Alegre. Agora que já se conhece o resultado da eleição majoritária, também é possível alargar a compreensão do que aconteceu ao longo do processo de campanha, reflexão fundamental para a tomada de decisões políticas sobre o próximo período.
Como é natural em momentos de transição como o presente, é claro que esta é uma avaliação em construção, portanto aberta à contribuição de todas as pessoas que protagonizaram a campanha.
Em primeiro lugar é importante resgatar o sentido e as características da candidatura do Célio a vereador. Por sua trajetória militante e liderança no movimento social LGBTT e na construção das paradas livres em Porto Alegre, Célio construiu-se como uma das referências mais importantes da luta social pela garantia dos direitos humanos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Ao mesmo tempo, com uma coerência notável, Célio notabilizou-se pela postura independente e autônoma, assumindo compromissos coletivos e rejeitando atitudes personalistas. Nesse sentido, o Coletivo que apoiou Célio no lançamento de sua candidatura vislumbrava aí a possibilidade de eleição de um genuíno militante dos movimentos sociais, portador de um perfil cada vez mais raro dentre as candidaturas à vereança que se apresentam a cada eleição. Combinando a poderosa idéia de representação de uma parcela importante da população da cidade com uma postura independente e crítica dentro do PT, ainda que conscientes dos limites eleitorais deste projeto político, nos aglutinamos e concentramos energia e esperança no eixo temático “Sim à diversidade”, que vertebrou toda a campanha.
Em um movimento político importantíssimo, durante quatro meses, como nunca antes, as bandeiras arco-íris que representam a diversidade estiveram travando uma poderosa disputa simbólica na cidade. Normalmente vistas somente nas Paradas Livres ou eventos de mobilização social, esta foi a primeira vez em que a presença das bandeiras rainbow se fez sentir cotidianamente em locais comuns da cidade como a Rua da Praia, o Largo Glênio Peres, a Redenção, a Usina do Gasômetro, a Restinga, o bairro Rubem Berta, etc. A beleza das bandeiras na cena pública teve um impacto visual bastante forte, que aliada à panfletagem do material que divulgava a candidatura, foi capaz de divulgar a mensagem de uma Porto Alegre sem preconceito, conteúdo altamente provocativo e transformador do imaginário social, cumprindo com um papel pedagógico fundamental. Justamente esta cotidianeidade e presença na paisagem urbana fez com que as pessoas refletissem profundamente sobre suas convicções e preconceitos, rompendo com a idéia tolerante-preconceituosa de que a cidadania de gays, lésbicas, travestis transexuais e bissexuais seja restrita a um único dia do calendário, o dia da Parada Livre. Demarcamos claramente a idéia de que a valorização da diversidade e da cidadania de todos e todas é para o ano inteiro e este é possivelmente o saldo político mais importante a ser ressaltado neste processo. Aqui, vencemos!
Também entendemos como “pontos fortes” da campanha o conteúdo propositivo da candidatura, que pautou questões bastante concretas para um mandato parlamentar comprometido com a diversidade e com os direitos humanos em uma perspectiva mais ampla. Construímos propostas nas áreas de Saúde e Assistência Social, Educação, Direitos Humanos, Planejamento Urbano e Política Habitacional, Cultura, Esporte e Lazer. Essa agenda e plataforma construída junto a representantes dos movimentos sociais LGBTT é dotada de alta legitimidade e consiste em um legado importante da candidatura. Entendemos como relevante monitorar e fiscalizar a propositura de projetos de lei ligados ao tema pelos representantes da bancada do PT, pois com a não eleição do Célio, os votos conferidos a esta proposta política acabaram dirigidos à própria bancada e estaremos com uma postura crítica e vigilante em relação a esse tema, tanto para garantir avanços concretos, como para resgatar autorias.
Em um período de forte disputa política e ideológica em torno de projetos para a sociedade e a cidadania como o que atravessamos, a campanha do Célio cumpriu com um papel bastante importante dentro da própria frente popular. Enquanto assistimos a inúmeros retrocessos, como o enfraquecimento do poder popular conferido originalmente ao Orçamento Participativo, como a naturalização da repressão imposta pelo governo Yeda e o Coronel Mendes aos movimentos sociais, nossa candidatura representou um corajoso contraponto. De fato, enquanto a própria campanha majoritária pautou o tema da segurança pública falando em “câmaras de vigilância”, conscientes e orgulhosos, assumimos uma agenda maldita. Falamos em combater o preconceito, mas fomos além... pautamos temas que NINGUÉM teve coragem de pautar: direito ao aborto, à livre expressão sexual, o combate à violência contra as mulheres, direito à cidade para o morador de rua e o carroceiro, descriminalização das drogas, parques livres de cercas, combate à burocracia e ao verticalismo. Nossa campanha foi, sem sombra de dúvida, a campanha que assumiu a agenda mais revolucionária de todas as candidaturas a vereador, não apenas no PT, mas em todos os partidos. É óbvio que há limites eleitorais claros para essa agenda, especialmente em uma época paradoxal como esta, em que ao mesmo tempo em que Lula é presidente da República, assistimos a pancadarias de dar inveja aos militares que contam com o silencioso apoio (senão com o aplauso) do senso comum.
A lealdade política e ideológica às nossas idéias e trajetórias, sem concessões eleitoreiras e pragmáticas, se pode ser ressaltada como “virtude” combinou-se a um obstáculo prático muito claro: candidato a vereador independente e autônomo em um partido profundamente marcado pela lógica das tendências paga um preço altíssimo por essa independência. A lógica das tendências, embora legítima, é uma lógica centralizadora, autoritária e de domesticação intelectual e política da militância. A amarração de militantes e votos a partir das tendências além de representar força de trabalho para as campanhas, carreia uma base de largada na votação para os candidatos de tendência e mina todas as possibilidades de real “conquista” de apoios internamente ao partido. Enfrentamos, como Davi a Golias, verdadeiras máquinas eleitorais, com um poderio econômico impressionante. Articulada em 4 meses, a candidatura do Célio disputou com campanhas que estavam “fazendo caixa” para o financiamento da campanha há pelo menos quatro anos. Por mais linda e sedutora que nossa campanha tenha sido, esta foi e é uma barreira intransponível para uma candidatura outsider como a nossa.
Se por um lado representou obstáculo, permitiu que nossa candidatura se notabilizasse pelo protagonismo militante e pela postura ética na política. A campanha modesta, feita com doações espontâneas de apoiadores/as, em um período em que práticas questionáveis de financiamento eleitoral e clientelismo político ainda estão presentes no cenário de disputa eleitoral, certamente foi reconhecida. A campanha do Célio teve capacidade de agregação de importantes quadros do PT desencantados com a crescente burocratização do partido e com a banalização das práticas de troca de favores em campanhas eleitorais.
Este desencanto com a política tem que ser considerado nesta avaliação como um elemento chave para explicar o cenário tanto da eleição de vereadores/as como da majoritária. Esta eleição aconteceu depois de uma série de escândalos envolvendo políticos/as tanto no plano nacional quanto regional. A sucessão de casos de corrupção envolvendo parlamentares e outros agentes políticos gera um desapontamento profundo na população, além de afastar da política uma parcela significativa das camadas médias que o PT tinha conquistado por sua coerência ética. Para o senso comum que raciocina de forma indutiva, chegar à conclusão de que “todos os políticos são corruptos” a partir de alguns casos divulgados pela imprensa, é muito fácil. Estas eleições registraram índices recorde de abstenção e votos brancos e nulos, expressando uma rejeição à qualquer proposta política. Esse sentimento e comportamento coletivo atingiram TODAS as candidaturas e a bancada do PT ficou abaixo das expectativas mais modestas. Não houve puxadores de votos em nenhum partido e essa foi uma conjuntura muito dura para novas candidaturas. A contundente derrota da Frente Popular ocorrida em 26 de outubro, por 60% de votos dirigidos à medíocre gestão de Fogaça demonstra que Porto Alegre também não á mais aquele farol da esquerda mundial e foi atingida por uma assustadora onda de indiferença com a política, o que na prática redunda em um reforço mudo ao conservadorismo sob todas as suas formas. A abertura das urnas da eleição para Prefeito/prefeita tem poder explicativo, também, para nossa própria votação.
A geopolítica da cidade também explica a votação do Célio. O bairro Bomfim consolidou-se como um micro-cosmo urbano, uma ilha de cidadania tolerante, antenada, cosmopolita e simpática à diversidade. Pela própria história do bairro que abrigou a comunidade judaica que fugia da perseguição nazista vindo para países como o Brasil, o Bomfim se tornou um bairro altamente plural e democrático, tendo como epicentro o parque da Redenção com sua multiplicidade de usos e públicos. Quase 50% dos votos do Célio veio da 1ª e da 2ª Zonal, que abrangem bairros como o Bomfim, Cidade Baixa, Santana e Centro bairros que por força de nossas limitações estruturais foram escolhidos como nossos bairros prioritários. Certamente acertamos no alvo territorial, pois nossa proposta política teve alta receptividade no Bomfim. Essa adesão entusiasmada à campanha do Célio no Bomfim, no entanto, não se repetiu em outros bairros da cidade, menos atingidos pela força simbólica e pedagógica de eventos como a parada livre, por exemplo.
Agora cumpre avaliar uma questão bastante específica e cara à nossa campanha. Certamente, a reflexão mais dura de ser feita é a que diz respeito à postura do nosso público-alvo em relação à candidatura, o que nos remete ao tema da participação política de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Em todos os nossos cálculos contávamos com um alicerce sólido de votos LGBTT que não se confirmou nas urnas. O fato demonstra que a expressão sexual das pessoas não é definidora das opções políticas que se apresentam. A candidatura do Célio, mesmo não tendo sido uma candidatura de consenso no movimento social LGBTT em Porto Alegre, expressa uma militância inquestionável ligada à conquista de direitos para a população LGBTT em Porto Alegre, em um trabalho bastante conhecido realizado junto ao nuances desde 1991. É alto o preço de dar visibilidade POLÍTICA à questão da sexualidade, pois uma série de conflitos subjetivos são desencadeados a partir dessa pauta. Uma coisa é ser bicha na vida privada, outra bem diferente é “sair do armário e entrar na câmara de vereadores”. A título de comparação, enquanto um militante com uma trajetória de 18 anos no movimento LGBTT não se elegeu em Porto Alegre, uma travesti participante de programas de televisão se elegeu com 12.000 votos em Salvador. Não casualmente, gays militantes têm uma histórica dificuldade em conquistarem mandatos parlamentares no Brasil.
Aqui em Porto Alegre esta questão foi agravada pela fragmentação dos militantes LGBTT. O tema da diversidade foi um tema bastante explorado pelas várias candidaturas, algumas de forma legítima, outras de forma oportunista já que sem qualquer relação histórica com o movimento. O fato é que o público LGBTT foi assediadíssimo e materiais sobre o tema foram produzidos por várias candidaturas. Alguns militantes também aderiram a outras candidaturas de forma explícita somente às vésperas da eleição, com o claro objetivo de demarcação com a candidatura do Célio. A não eleição do Célio é uma derrota política para o próprio movimento, que poderia ter conquistado um mandato parlamentar mas renunciou a esta possibilidade histórica. De um ponto de vista mais amplo perde a esquerda que também se enfraquece ao ser incapaz de eleger um militante que segura a bandeira da diversidade e dos direitos humanos, e perde a cidade, que reproduz uma Câmara de Vereadores/as na qual somente uma parte da população tem representação. Esse é um dos temas chave para compreender o que aconteceu e para avaliarmos, retrospectivamente, nossa estratégia política.
Nossa intenção, aqui, era a de oferecer elementos com poder explicativo para os 1805 votos que recebemos. Os votos não foram suficientes para eleger o Célio, mas são altamente significativos se consideramos que tivemos um período curtíssimo entre a decisão de concorrer a vereador (maio) e a eleição. As candidaturas mais votadas do PT, articuladas há anos e com muito mais estrutura do que a nossa, fizeram 4 vezes mais votos que o Célio. Neste sentido, nos sentimos vitoriosos, pelo que ensinamos e pelo que aprendemos no processo. A campanha que disse SIM À DIVERSIDADE entrou para a história da cidade e da cidadania porto-alegrense para sempre. A história não pode ser contada apenas da perspectiva dos vencedores. Contar a história dos vencidos, do embate de argumentos e da correlação de forças que produziu um determinado resultado é uma tarefa que as pessoas que protagonizaram esta campanha tem orgulho em fazer!! Em boa medida, vencemos!! E seguiremos na luta cotidiana com firmeza, coerência e autonomia. Entendemos que o desafio maior do nosso coletivo é agora o de refletirmos sobre como vamos conduzir, no próximo período, o fantástico legado político da Campanha que disse SIM à DIVERSIDADE.
Célio Golin e Coletivo de Coordenação de campanha
celiogolin13024@gmail.com
Elementos para uma avaliação da campanha que disse
SIM à DIVERSIDADE
O presente texto é resultado de um esforço coletivo realizado pela coordenação da campanha CÉLIO GOLIN VEREADOR – SIM À DIVERSIDADE, visando avaliar a campanha, identificar seus pontos fortes e debilidades e, sobretudo, oferecer ao coletivo de apoio à candidatura, elementos para a interpretação do resultado das urnas e da conjuntura pós-eleitoral em Porto Alegre. Agora que já se conhece o resultado da eleição majoritária, também é possível alargar a compreensão do que aconteceu ao longo do processo de campanha, reflexão fundamental para a tomada de decisões políticas sobre o próximo período.
Como é natural em momentos de transição como o presente, é claro que esta é uma avaliação em construção, portanto aberta à contribuição de todas as pessoas que protagonizaram a campanha.
Em primeiro lugar é importante resgatar o sentido e as características da candidatura do Célio a vereador. Por sua trajetória militante e liderança no movimento social LGBTT e na construção das paradas livres em Porto Alegre, Célio construiu-se como uma das referências mais importantes da luta social pela garantia dos direitos humanos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Ao mesmo tempo, com uma coerência notável, Célio notabilizou-se pela postura independente e autônoma, assumindo compromissos coletivos e rejeitando atitudes personalistas. Nesse sentido, o Coletivo que apoiou Célio no lançamento de sua candidatura vislumbrava aí a possibilidade de eleição de um genuíno militante dos movimentos sociais, portador de um perfil cada vez mais raro dentre as candidaturas à vereança que se apresentam a cada eleição. Combinando a poderosa idéia de representação de uma parcela importante da população da cidade com uma postura independente e crítica dentro do PT, ainda que conscientes dos limites eleitorais deste projeto político, nos aglutinamos e concentramos energia e esperança no eixo temático “Sim à diversidade”, que vertebrou toda a campanha.
Em um movimento político importantíssimo, durante quatro meses, como nunca antes, as bandeiras arco-íris que representam a diversidade estiveram travando uma poderosa disputa simbólica na cidade. Normalmente vistas somente nas Paradas Livres ou eventos de mobilização social, esta foi a primeira vez em que a presença das bandeiras rainbow se fez sentir cotidianamente em locais comuns da cidade como a Rua da Praia, o Largo Glênio Peres, a Redenção, a Usina do Gasômetro, a Restinga, o bairro Rubem Berta, etc. A beleza das bandeiras na cena pública teve um impacto visual bastante forte, que aliada à panfletagem do material que divulgava a candidatura, foi capaz de divulgar a mensagem de uma Porto Alegre sem preconceito, conteúdo altamente provocativo e transformador do imaginário social, cumprindo com um papel pedagógico fundamental. Justamente esta cotidianeidade e presença na paisagem urbana fez com que as pessoas refletissem profundamente sobre suas convicções e preconceitos, rompendo com a idéia tolerante-preconceituosa de que a cidadania de gays, lésbicas, travestis transexuais e bissexuais seja restrita a um único dia do calendário, o dia da Parada Livre. Demarcamos claramente a idéia de que a valorização da diversidade e da cidadania de todos e todas é para o ano inteiro e este é possivelmente o saldo político mais importante a ser ressaltado neste processo. Aqui, vencemos!
Também entendemos como “pontos fortes” da campanha o conteúdo propositivo da candidatura, que pautou questões bastante concretas para um mandato parlamentar comprometido com a diversidade e com os direitos humanos em uma perspectiva mais ampla. Construímos propostas nas áreas de Saúde e Assistência Social, Educação, Direitos Humanos, Planejamento Urbano e Política Habitacional, Cultura, Esporte e Lazer. Essa agenda e plataforma construída junto a representantes dos movimentos sociais LGBTT é dotada de alta legitimidade e consiste em um legado importante da candidatura. Entendemos como relevante monitorar e fiscalizar a propositura de projetos de lei ligados ao tema pelos representantes da bancada do PT, pois com a não eleição do Célio, os votos conferidos a esta proposta política acabaram dirigidos à própria bancada e estaremos com uma postura crítica e vigilante em relação a esse tema, tanto para garantir avanços concretos, como para resgatar autorias.
Em um período de forte disputa política e ideológica em torno de projetos para a sociedade e a cidadania como o que atravessamos, a campanha do Célio cumpriu com um papel bastante importante dentro da própria frente popular. Enquanto assistimos a inúmeros retrocessos, como o enfraquecimento do poder popular conferido originalmente ao Orçamento Participativo, como a naturalização da repressão imposta pelo governo Yeda e o Coronel Mendes aos movimentos sociais, nossa candidatura representou um corajoso contraponto. De fato, enquanto a própria campanha majoritária pautou o tema da segurança pública falando em “câmaras de vigilância”, conscientes e orgulhosos, assumimos uma agenda maldita. Falamos em combater o preconceito, mas fomos além... pautamos temas que NINGUÉM teve coragem de pautar: direito ao aborto, à livre expressão sexual, o combate à violência contra as mulheres, direito à cidade para o morador de rua e o carroceiro, descriminalização das drogas, parques livres de cercas, combate à burocracia e ao verticalismo. Nossa campanha foi, sem sombra de dúvida, a campanha que assumiu a agenda mais revolucionária de todas as candidaturas a vereador, não apenas no PT, mas em todos os partidos. É óbvio que há limites eleitorais claros para essa agenda, especialmente em uma época paradoxal como esta, em que ao mesmo tempo em que Lula é presidente da República, assistimos a pancadarias de dar inveja aos militares que contam com o silencioso apoio (senão com o aplauso) do senso comum.
A lealdade política e ideológica às nossas idéias e trajetórias, sem concessões eleitoreiras e pragmáticas, se pode ser ressaltada como “virtude” combinou-se a um obstáculo prático muito claro: candidato a vereador independente e autônomo em um partido profundamente marcado pela lógica das tendências paga um preço altíssimo por essa independência. A lógica das tendências, embora legítima, é uma lógica centralizadora, autoritária e de domesticação intelectual e política da militância. A amarração de militantes e votos a partir das tendências além de representar força de trabalho para as campanhas, carreia uma base de largada na votação para os candidatos de tendência e mina todas as possibilidades de real “conquista” de apoios internamente ao partido. Enfrentamos, como Davi a Golias, verdadeiras máquinas eleitorais, com um poderio econômico impressionante. Articulada em 4 meses, a candidatura do Célio disputou com campanhas que estavam “fazendo caixa” para o financiamento da campanha há pelo menos quatro anos. Por mais linda e sedutora que nossa campanha tenha sido, esta foi e é uma barreira intransponível para uma candidatura outsider como a nossa.
Se por um lado representou obstáculo, permitiu que nossa candidatura se notabilizasse pelo protagonismo militante e pela postura ética na política. A campanha modesta, feita com doações espontâneas de apoiadores/as, em um período em que práticas questionáveis de financiamento eleitoral e clientelismo político ainda estão presentes no cenário de disputa eleitoral, certamente foi reconhecida. A campanha do Célio teve capacidade de agregação de importantes quadros do PT desencantados com a crescente burocratização do partido e com a banalização das práticas de troca de favores em campanhas eleitorais.
Este desencanto com a política tem que ser considerado nesta avaliação como um elemento chave para explicar o cenário tanto da eleição de vereadores/as como da majoritária. Esta eleição aconteceu depois de uma série de escândalos envolvendo políticos/as tanto no plano nacional quanto regional. A sucessão de casos de corrupção envolvendo parlamentares e outros agentes políticos gera um desapontamento profundo na população, além de afastar da política uma parcela significativa das camadas médias que o PT tinha conquistado por sua coerência ética. Para o senso comum que raciocina de forma indutiva, chegar à conclusão de que “todos os políticos são corruptos” a partir de alguns casos divulgados pela imprensa, é muito fácil. Estas eleições registraram índices recorde de abstenção e votos brancos e nulos, expressando uma rejeição à qualquer proposta política. Esse sentimento e comportamento coletivo atingiram TODAS as candidaturas e a bancada do PT ficou abaixo das expectativas mais modestas. Não houve puxadores de votos em nenhum partido e essa foi uma conjuntura muito dura para novas candidaturas. A contundente derrota da Frente Popular ocorrida em 26 de outubro, por 60% de votos dirigidos à medíocre gestão de Fogaça demonstra que Porto Alegre também não á mais aquele farol da esquerda mundial e foi atingida por uma assustadora onda de indiferença com a política, o que na prática redunda em um reforço mudo ao conservadorismo sob todas as suas formas. A abertura das urnas da eleição para Prefeito/prefeita tem poder explicativo, também, para nossa própria votação.
A geopolítica da cidade também explica a votação do Célio. O bairro Bomfim consolidou-se como um micro-cosmo urbano, uma ilha de cidadania tolerante, antenada, cosmopolita e simpática à diversidade. Pela própria história do bairro que abrigou a comunidade judaica que fugia da perseguição nazista vindo para países como o Brasil, o Bomfim se tornou um bairro altamente plural e democrático, tendo como epicentro o parque da Redenção com sua multiplicidade de usos e públicos. Quase 50% dos votos do Célio veio da 1ª e da 2ª Zonal, que abrangem bairros como o Bomfim, Cidade Baixa, Santana e Centro bairros que por força de nossas limitações estruturais foram escolhidos como nossos bairros prioritários. Certamente acertamos no alvo territorial, pois nossa proposta política teve alta receptividade no Bomfim. Essa adesão entusiasmada à campanha do Célio no Bomfim, no entanto, não se repetiu em outros bairros da cidade, menos atingidos pela força simbólica e pedagógica de eventos como a parada livre, por exemplo.
Agora cumpre avaliar uma questão bastante específica e cara à nossa campanha. Certamente, a reflexão mais dura de ser feita é a que diz respeito à postura do nosso público-alvo em relação à candidatura, o que nos remete ao tema da participação política de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Em todos os nossos cálculos contávamos com um alicerce sólido de votos LGBTT que não se confirmou nas urnas. O fato demonstra que a expressão sexual das pessoas não é definidora das opções políticas que se apresentam. A candidatura do Célio, mesmo não tendo sido uma candidatura de consenso no movimento social LGBTT em Porto Alegre, expressa uma militância inquestionável ligada à conquista de direitos para a população LGBTT em Porto Alegre, em um trabalho bastante conhecido realizado junto ao nuances desde 1991. É alto o preço de dar visibilidade POLÍTICA à questão da sexualidade, pois uma série de conflitos subjetivos são desencadeados a partir dessa pauta. Uma coisa é ser bicha na vida privada, outra bem diferente é “sair do armário e entrar na câmara de vereadores”. A título de comparação, enquanto um militante com uma trajetória de 18 anos no movimento LGBTT não se elegeu em Porto Alegre, uma travesti participante de programas de televisão se elegeu com 12.000 votos em Salvador. Não casualmente, gays militantes têm uma histórica dificuldade em conquistarem mandatos parlamentares no Brasil.
Aqui em Porto Alegre esta questão foi agravada pela fragmentação dos militantes LGBTT. O tema da diversidade foi um tema bastante explorado pelas várias candidaturas, algumas de forma legítima, outras de forma oportunista já que sem qualquer relação histórica com o movimento. O fato é que o público LGBTT foi assediadíssimo e materiais sobre o tema foram produzidos por várias candidaturas. Alguns militantes também aderiram a outras candidaturas de forma explícita somente às vésperas da eleição, com o claro objetivo de demarcação com a candidatura do Célio. A não eleição do Célio é uma derrota política para o próprio movimento, que poderia ter conquistado um mandato parlamentar mas renunciou a esta possibilidade histórica. De um ponto de vista mais amplo perde a esquerda que também se enfraquece ao ser incapaz de eleger um militante que segura a bandeira da diversidade e dos direitos humanos, e perde a cidade, que reproduz uma Câmara de Vereadores/as na qual somente uma parte da população tem representação. Esse é um dos temas chave para compreender o que aconteceu e para avaliarmos, retrospectivamente, nossa estratégia política.
Nossa intenção, aqui, era a de oferecer elementos com poder explicativo para os 1805 votos que recebemos. Os votos não foram suficientes para eleger o Célio, mas são altamente significativos se consideramos que tivemos um período curtíssimo entre a decisão de concorrer a vereador (maio) e a eleição. As candidaturas mais votadas do PT, articuladas há anos e com muito mais estrutura do que a nossa, fizeram 4 vezes mais votos que o Célio. Neste sentido, nos sentimos vitoriosos, pelo que ensinamos e pelo que aprendemos no processo. A campanha que disse SIM À DIVERSIDADE entrou para a história da cidade e da cidadania porto-alegrense para sempre. A história não pode ser contada apenas da perspectiva dos vencedores. Contar a história dos vencidos, do embate de argumentos e da correlação de forças que produziu um determinado resultado é uma tarefa que as pessoas que protagonizaram esta campanha tem orgulho em fazer!! Em boa medida, vencemos!! E seguiremos na luta cotidiana com firmeza, coerência e autonomia. Entendemos que o desafio maior do nosso coletivo é agora o de refletirmos sobre como vamos conduzir, no próximo período, o fantástico legado político da Campanha que disse SIM à DIVERSIDADE.
Célio Golin e Coletivo de Coordenação de campanha
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